Anis Rassi: um dos médicos mais importantes de Goiânia era chamado de ‘operador de galinhas’ na infância; conheça história

Antes de o sobrenome Rassi estampar um hospital de Goiânia, aparecer em artigos científicos internacionais e ser associado à pesquisa da doença de Chagas, havia um menino em Vianópolis que enxergava uma cirurgia onde os adultos viam apenas uma galinha sendo preparada para o almoço. O próprio Anis Rassi contaria, décadas depois, que já no primário pensava em “operar” as aves criadas em casa. Por isso ganhou uma espécie de apelido familiar: “operador de galinhas”. Era uma lembrança quase prosaica para alguém que terminaria a vida como um dos nomes ligados à construção da cardiologia goiana.
A história dele também começa muito antes do próprio nascimento. Abrão Rassi, o pai, deixou o Líbano aos 16 anos disposto, como tantos imigrantes daquele período, a “fazer a América”. Passou por Cuba, retornou ao Líbano, casou-se com Mariana, voltou ao território cubano e, depois de uma crise econômica no país, decidiu tentar a vida no Brasil. Em 1924, a família chegou ao país e acabou estabelecida em Vianópolis, onde Abrão trabalhou como pequeno comerciante.
Foi nesse interior goiano que nasceu Anis Rassi, em 15 de setembro de 1929. Ele era o nono de dez filhos e cresceu em uma família na qual estudar representava uma possibilidade de mudança de vida. Quatro de seus irmãos também se tornariam médicos, segundo registro biográfico publicado pela Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. Décadas depois, quatro dos cinco filhos de Anis seguiriam a mesma profissão.
A trajetória poderia ser resumida como a história de uma família de imigrantes que entrou para a medicina. Mas o que aconteceu entre Vianópolis e o reconhecimento internacional é mais improvável: Anis ajudou a produzir pesquisa em uma Goiânia onde faltavam estruturas hoje consideradas elementares, transformou pacientes que encontrava diariamente em perguntas científicas e participou da formação de uma escola goiana de estudos sobre Chagas. O caminho começa quase artesanalmente.
O menino que queria ser médico antes de saber como seria
Na entrevista concedida à Casa de Oswaldo Cruz, em 2001, Anis Rassi rejeita a ideia de que tenha escolhido a medicina simplesmente porque os irmãos mais velhos seguiram a profissão. Ele situa a decisão ainda na infância. Ao observar a preparação das galinhas criadas em casa, associava aquilo, em sua imaginação infantil, a um procedimento cirúrgico.
A medicina também fazia parte do projeto de ascensão da família. Rassi lembrava que os pais libaneses realizavam grandes sacrifícios para que os filhos estudassem e obtivessem formação superior. O pai, pequeno comerciante, pertencia a uma geração de imigrantes que avançava pelo interior acompanhando, entre outros caminhos, o prolongamento das estradas de ferro e as possibilidades abertas pelo comércio.
Em 1948, Anis presta vestibular para a Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Ele próprio contava, com humor, que passou na primeira tentativa, mas foi o último classificado naquela seleção. Forma-se em 1953, permanece mais um ano no Rio para especialização e, nos primeiros dias de janeiro de 1955, inicia a carreira profissional em Goiânia.
Era o retorno definitivo a Goiás. E seria justamente o que encontrou nos consultórios goianos, e não o que tinha visto durante a formação no Rio de Janeiro, que determinaria os próximos capítulos de sua vida.
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A doença que ele quase não via no Rio estava por toda parte em Goiás
Na formação como cardiologista no Rio, Anis lidava principalmente com hipertensão, cardiopatias congênitas, doenças reumáticas e isquêmicas. Quando retorna a Goiânia, encontra algo diferente. Os pacientes apresentam manifestações da doença de Chagas em uma frequência que ele simplesmente não tinha visto durante a especialização.
Esse choque entre a medicina aprendida no Rio e a realidade encontrada em Goiás muda sua carreira. Na entrevista preservada pela Casa de Oswaldo Cruz, da Fiocruz, Rassi explica que seu interesse pela pesquisa não nasceu na faculdade. Nasceu olhando os casos que chegavam em Goiânia. “Foi vendo os casos”, resume ao explicar como se aproximou da cardiopatia chagásica.
Havia uma diferença essencial. No Rio, Anis havia tido contato com apenas um caso daquela natureza. Em Goiás, encontra aquilo que descreve como um “manancial enorme” de manifestações da doença. A região que poderia ser vista como periferia da produção médica brasileira passa a oferecer ao jovem cardiologista perguntas que os grandes centros não conseguiam responder sozinhos.
A partir daquele momento, Chagas deixa de ser apenas uma doença encontrada no consultório. Torna-se uma linha de investigação que acompanharia Anis por décadas.
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Antes dos grandes laboratórios, ele etiquetava tubos e levava sangue para o avião
Talvez uma das cenas que melhor explique a carreira de Anis Rassi esteja longe dos congressos internacionais. Nos anos 1950, Goiânia ainda não oferecia a estrutura científica que um pesquisador encontra atualmente em uma universidade ou centro hospitalar. Para realizar determinados exames, era necessário enviar material para outros lugares. A solução encontrada pelo médico tinha pouco de sofisticada.
Anis retirava e organizava o material, identificava pessoalmente os frascos com soro dos pacientes e os levava para serem despachados pela Vasp. As amostras viajavam de avião, os exames eram feitos fora e os resultados retornavam para Goiás. Parte do trabalho acontecia no hospital; parte, na própria casa.
Quando as historiadoras perguntaram como classificaria aquela pesquisa, ele escolheu uma palavra: “artesanal”. O trabalho ocupava o tempo que sobrava da rotina médica e avançava durante a noite. Não existia ainda a estrutura universitária que anos depois sustentaria grupos de pesquisa especializados em Goiânia.
A precariedade material, porém, não impediu a criação de registros que ganhariam valor com o passar das décadas. Segundo homenagem publicada pelo Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da UFG, Rassi teve a iniciativa de congelar soros de pacientes e formar uma soroteca que posteriormente permitiria trabalhos envolvendo mais de mil pessoas. Também foram realizados mais de 6 mil xenodiagnósticos no contexto dessa linha de pesquisa.
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Uma carta para 55 médicos mudou o tamanho da pesquisa

Em 1956, com apenas três anos de formado, Anis decide organizar um estudo sistematizado sobre a fase aguda da doença de Chagas. Havia um problema: um único consultório em Goiânia não seria suficiente para reunir rapidamente a quantidade de casos necessária. A saída encontrada pelo médico parece simples hoje, mas antecipa uma lógica de rede de pesquisa.
Rassi escreve para 55 médicos que trabalhavam em cidades goianas localizadas em áreas endêmicas. Nas cartas, descreve os sinais e sintomas que poderiam indicar a fase aguda da doença e orienta os colegas sobre o diagnóstico. A estratégia transforma profissionais espalhados pelo interior em uma rede informal de identificação de pacientes.
Em menos de dois anos, 18 casos chegam até ele e dão origem a uma publicação na Revista Goiana de Medicina. Depois disso, os encaminhamentos continuam. Rassi percebe que uma das dificuldades para encontrar a fase aguda estava justamente em reconhecer manifestações menos evidentes da enfermidade.
Aquele movimento revela uma característica que acompanha sua produção científica: a pesquisa não estava separada da prática médica. Ela começava no paciente, avançava para o registro clínico, mobilizava outros profissionais e voltava para a assistência sob a forma de conhecimento.
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Quando São Paulo veio a Goiânia aprender sobre Chagas
Outra passagem contada pelo próprio médico ajuda a dimensionar a mudança de posição que Goiânia conquista nesse campo. Décadas depois de Anis encontrar em Goiás uma doença que praticamente não havia visto durante a formação no Rio, pesquisadores de outros centros passam a procurar o conhecimento acumulado pelos goianos.
Rassi relata que, durante um congresso de cardiologia, conversou com o cardiologista e cirurgião Adib Jatene sobre a possibilidade de desenvolver um trabalho relacionado à doença. A conversa evoluiu para a criação de uma estrutura específica para Chagas no Instituto Dante Pazzanese, em São Paulo. O médico Elias Boainain foi então enviado a Goiânia para aprender os procedimentos utilizados pela equipe de Anis.
Durante cerca de 20 dias, segundo o relato de Rassi, o médico vindo de São Paulo estudou em Goiânia tratamento, sorologia e xenodiagnóstico. Era uma inversão simbólica importante. O especialista goiano que, no início da carreira, precisava enviar tubos de soro de avião para realizar exames passava a receber profissionais de um dos principais centros médicos do país interessados em aprender a estrutura construída em Goiás.
É esse processo que ajuda a explicar por que o Mais Goiás, ao reconstruir a trajetória do cardiologista em 2021, registra que o grupo conduzido por ele transformou Goiânia em referência nacional e internacional no estudo e tratamento da doença de Chagas.
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O nome de Goiânia chega a uma das principais revistas médicas do mundo

O resultado daquela medicina construída durante décadas aparece, mais tarde, em publicações internacionais. Em 2006, Anis Rassi integra o grupo de autores de um estudo publicado no New England Journal of Medicine sobre a previsão do risco de morte em pacientes com cardiopatia chagásica. O trabalho cria e valida um escore prognóstico que ficaria conhecido na literatura médica como escore de Rassi.
A pesquisa inicial avalia 424 pacientes e valida o modelo em outro grupo com 153 pessoas. Na lista de autores estão Anis Rassi, o filho Anis Rassi Jr. e outros integrantes da família e da cardiologia brasileira. O artigo identifica a Divisão de Cardiologia do Hospital Anis Rassi, em Goiânia, entre as instituições dos pesquisadores.
O caminho científico alcança também organizações internacionais. A UFG registra que Rassi atuou como consultor da Organização Mundial da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde e participou de encontros técnicos relacionados a tratamento, formas clínicas e acompanhamento da doença de Chagas. Em 1998, recebeu da universidade o título de Professor Emérito.
A própria Universidade Federal de Goiás o descreve como pesquisador reconhecido nacional e internacionalmente, precursor dos estudos da doença de Chagas e autor ou coautor de cerca de 84 artigos de repercussão. A instituição também registra 29 prêmios e láureas em seu currículo.
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De filho de comerciante a fundador de uma linhagem médica
A medicina acompanha Anis também dentro de casa. Em 1956, ele se casa com Evelyn Gabriel Rassi, com quem tem cinco filhos. Sérgio, Anis Jr., Alexandre e Gustavo tornam-se médicos; Maria Cristina segue a psicologia. Dos quatro médicos, três entram na cardiologia e um na área de patologia, segundo o perfil biográfico publicado após sua morte.
O fenômeno atravessa mais de uma geração. O Mais Goiás registrou, em 2021, que cinco netos também haviam escolhido a medicina. O filho do pequeno comerciante libanês que atravessou países antes de chegar ao interior de Goiás passa, assim, a ocupar o centro de uma família diretamente associada à construção da medicina no estado.
Anis também funda o hospital que leva seu nome em Goiânia. A instituição é inaugurada em 2003, segundo registro reproduzido pelo Mais Goiás, e consolida no espaço hospitalar um sobrenome que já estava associado à cardiologia goiana havia décadas. Quando Rassi morreu, em 6 de junho de 2021, aos 91 anos, a UFG o definiu como um dos fundadores de sua Faculdade de Medicina e professor emérito.
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O homem por trás do sobrenome que ficou na medicina de Goiás
A história de Anis Rassi pode ser contada pelos títulos, pelos estudos publicados e pelas instituições das quais participou. Mas talvez ela seja mais bem compreendida pelas pequenas cenas preservadas de sua trajetória. O garoto de Vianópolis que imaginava cirurgias ainda no quintal, o jovem médico que trabalhava à noite, o pesquisador que rotulava pessoalmente os tubos de soro e os carregava até o avião formam o mesmo personagem que, décadas depois, aparece em uma publicação do New England Journal of Medicine.
Há também uma espécie de círculo nessa trajetória. O pai cruza continentes e chega ao interior de Goiás sustentado pelo comércio. O filho deixa Vianópolis para estudar medicina no Rio de Janeiro e retorna a um estado onde encontra um problema médico ainda repleto de perguntas. Em vez de permanecer nos grandes centros, constrói a pesquisa em Goiânia.
O que começa com cartas para médicos do interior e amostras despachadas pela Vasp termina com pesquisadores de outros estados procurando Goiás, participação em organismos internacionais e estudos publicados no exterior. Não é apenas uma história sobre doença de Chagas. É a história de como um médico formado longe de casa voltou para Goiás, encontrou aqui o problema ao qual dedicaria décadas e transformou a própria geografia da carreira em parte de sua contribuição científica.
Anis Rassi morreu em Goiânia, a cidade para a qual retornou em janeiro de 1955 para começar a trabalhar. Entre aquele início e sua morte passaram-se 66 anos. O sobrenome permaneceu nos filhos, nos netos, no hospital e na literatura científica — mas a história começou antes de tudo isso, em Vianópolis, dentro da casa de uma família de comerciantes libaneses.
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