Política

Assédio eleitoral: a escalada das rixas entre grupos de lados distintos do ringue ideológico

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Desde que o Brasil voltou a realizar eleições regulares para a Presidência da República, em 1989, uma mesma dinâmica vem se observando a cada pleito: o representante do Partido dos Trabalhadores antagoniza com um candidato à direita — a localização exata no espectro, se mais ao centro ou ao extremo, varia ao longo dos anos. A polarização nos dois lados do ringue, porém, já não se restringe à disputa nas fronteiras do ciclo eleitoral. É visível para muito além dele na sociedade, rachada entre coloridos ideológicos. E seus efeitos seguem ecoando não apenas na arena da política, em uma espécie de terceiro turno em que as contendas saltam do palanque para a música que se ouve ou para o produto que se compra — tudo passa a ser indicador da bandeira que os indivíduos abraçam. Tal tendência tem se intensificado, e agora, como desdobramento dos acirrados ânimos com a recente ida às urnas, escalou de patamar na forma de um fenômeno que tem nome muito claro: assédio eleitoral.

Os números mostram o quão recorrente é o problema: em nenhuma outra votação houve registro de tantas denúncias como na deste ano. O Ministério Público do Trabalho recebeu 4 340 reclamações, sendo que mais da metade veio nos dias que sucederam ao segundo turno. O problema pode ser ainda maior, pois muitas vítimas não se dão ao trabalho de procurar a Justiça. A natureza dos casos é variada — esse tipo de assédio, afinal, abarca toda espécie de distinção por motivos políticos no ambiente de trabalho. Já no início do processo eleitoral, tornaram-se frequentes relatos de reuniões em empresas para pedir apoio a determinados candidatos, seguidas de turnos que poderiam dificultar o exercício do voto, ameaça de fechamento de vagas e até demissões em razão do viés do funcionário — um conjunto de más práticas que configuram crime. “A lei estabelece que o empregador pode ser obrigado a pagar indenizações por danos morais que não são baratas, e o trabalhador tem o direito de ser reintegrado no caso de uma dispensa por motivos eleitorais”, explica Igor Sousa Gonçalves, procurador do Ministério Público do Trabalho.

SEM JUSTA CAUSA – Apoiadora de Lula, a administradora Betysa Souza, 35 anos, foi monitorada nas redes sociais e acabou demitida, sem explicações. “Tenho medo de não conseguir mais emprego”, diz. (@valeria.betysa/Instagram)

Diante do turbilhão de histórias nas redes, o Ministério do Trabalho e Emprego passou a enviar alertas pelo aplicativo da carteira de trabalho digital, estimulando a denúncia, o que impulsionou os casos reportados — 600 por dia, em média, desde 28 de outubro. Não há um balanço do matiz ideológico dos que foram alvo, mas sabidamente persiste no tecido social uma fissura em ambos os campos, e ela não raro descamba para a intolerância. Passado o pleito, uma campanha nas redes liderada por quadros da oposição, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-­MG), incentivava a demissão dos que depositaram o voto no PT. Eleitora de Lula, a administradora de empresas Betysa Valéria de Souza, 35 anos, bem que tentou evitar embarcar em discussões de teor eleitoral na companhia de mineração onde havia recém-ingressado. Só não imaginava que seus posts estavam sendo monitorados, o que soube depois. Acabou dispensada antes do fim do período de experiência. “Oficialmente, disseram apenas que a decisão veio de cima, mas estava bem, integrada, não havia outra razão que não política”, conta. Detalhe: mesmo difíceis de provar, episódios como o dela podem levar ao retorno do funcionário à empresa, se assim ele desejar.

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Dois homens sorridentes, um de camisa polo amarela e outro de camisa verde, ambos com gola e detalhes nas mangas em cores contrastantes, e um escudo do Brasil no peito. O homem de verde tem tatuagens no braço esquerdo e usa uma pulseira preta.
AQUI, NÃO – Jorge & Mateus, pró-Bolsonaro: shows cancelados no Nordeste (@jorgeemateus/Instagram)

Os elevados níveis de polarização, que insistem em minar o bom debate, se fazem sentir em outros escaninhos da vida. Está sob investigação da polícia o relato de um aluno de 16 anos do Centro Educacional 6 do Gama, escola pública de Brasília, que contou ter sofrido bullying de colegas e funcionários por apoiar Flávio Bolsonaro, do PL. Sem mais clima para estudar, mudou de colégio. “Os professores e o diretor não aguentaram minha opinião”, desabafou em vídeo. Shows da dupla Jorge & Mateus, previstos para dezembro em Recife e Fortaleza, foram cancelados depois de uma saraivada de protestos nas redes sociais. Os dois apoiaram a candidatura bolsonarista.

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Listas de empresas consideradas “petistas” também circularam em grupos de WhatsApp de direita que defendiam seu boicote. Não é a primeira vez, aliás, que iniciativa do gênero desponta em meio a um duelo eleitoral, de um lado e de outro, associando espetáculos, produtos e serviços a certa corrente. É mais um sintoma do que a respeitada especialista americana Lynn Vavreck chama de calcificação, um degrau acima da polarização, observada justamente quando as divisões extrapolam o terreno da política. Sob nenhum ângulo, ela é desejável. “Uma economia cindida perde o dinamismo”, afirma Márcio Moretto, coordenador do Monitor do Debate Público da USP.

Tela de aplicativo móvel com fundo branco e azul. No topo, um cabeçalho azul escuro com Olá, CPF e ícones de perfil, sino e olho. Abaixo, um banner azul claro pergunta Foi demitido ou ameaçado por causa do seu voto? com um botão laranja ASSÉDIO ELEITORAL! DENUNCIE AQUI. Em seguida, três caixas brancas com ícones e textos: Contratos de Trabalho Digitais, Outros vínculos de trabalho e Enviar Carteira de Trabalho Digital. Na parte inferior, uma barra de navegação com ícones de carteira, dinheiro, pasta e menu
RECORDE INFELIZ – Alerta do governo: denúncias no Ministério do Trabalho nunca foram tão altas como agora (./.)
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Às vezes, mesmo quem não quer se enredar em debate raivoso acaba sugado pela polarização. Sem nunca ter declarado predileção por qualquer candidato, Hélio Domingos, 35 anos, dono de um restaurante na cidade de Tubarão, em Santa Catarina, assustou-se quando lhe disseram que seu nome constava em um rol de empresários supostamente “simpáticos ao petismo”. O movimento do negócio despencou, e ele recorreu às redes, onde falou sobre o ocorrido em um vídeo com milhões de views. “Fui muito abraçado, e o fluxo de clientes aumentou como nunca”, conta. Episódios desse tipo ilustram um traço da polarização identificado pelo psicólogo polonês Henri Tajfel, ainda no início dos anos 1970. Ao liderar experimentos para investigar como os grupos se formavam, ele descobriu que bastavam poucos gostos em comum para as pessoas desenvolverem comportamento semelhante ao de uma torcida de futebol, sem espaço para enaltecer as jogadas no campo adversário nem criticar a si mesma. Que o Brasil consiga se livrar de uma vez por todas do clima de arquibancada.

Com reportagem de Duda Monteiro de Barros

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Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2026, edição nº 3020

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