Brasil deve ter safra recorde de avocado, incentivada por exportações


O Brasil deve colher neste ano a maior safra de abacate hass, ou avocado, da história. A expectativa é de que o volume chegue a 60 mil toneladas, o dobro de 2025, segundo a Abacates do Brasil, associação que reúne produtores, técnicos e viveiristas de avocado. Incentivada pelas exportações de cerca de 90% da produção, a área plantada dessa variedade de abacate menor, de casca escura, rugosa e polpa mais consistente que a do abacate tropical cresce ano a ano no país.
A produtividade da árvore, que começa a dar frutos a partir do quarto ano e exige clima mais frio e altitude maior, caiu nos últimos cinco anos devido a problemas climáticos como o excesso de calor e a falta de chuva na época do pegamento de frutos, segundo Rodrigo de Paiva Stockler Barbosa, presidente da associação.
Em 2025, a Jaguacy Avocado, com sede em Bauru (SP), empresa pioneira do cultivo de avocado no Brasil, maior produtora e exportadora, teve uma quebra de 70% da sua safra devido à falta de chuvas. Com condições climáticas mais favoráveis neste ano, a estimativa é colher a maior safra da companhia.
Além do crescimento da produtividade, a colheita também deve aumentar no Brasil em decorrência da entrada em produção de novos pomares. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta uma área plantada de abacates de 18,1 mil hectares no país, sem diferenciar abacate tropical e avocado.
A estimativa da Abacates do Brasil é que a área de avocado alcance neste ano entre 10 mil e 11 mil hectares. Há quatro anos, eram 9 mil hectares; há dez anos, apenas 1 mil. A maior produção se concentra em São Paulo e Minas Gerais, com colheita de fevereiro até setembro.
Indicado por nutricionistas pelo grande teor de fibras e potássio, além de vitaminas E, B6, ácidos graxos monoinsaturados, gordura saudável e antioxidantes, o avocado leva vantagem sobre o abacate tropical por ter prazo de validade de até 45 dias, o que permite sua exportação por navio.
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Pioneirismo
O cultivo comercial de avocado na Fazenda Jaguacy começou há 51 anos, quando o agrônomo Paulo Leite de Carvalho e sua mulher, Maria Cristina Falanghe Carvalho, iniciaram um projeto de reflorestamento com frutas que incluía abacates. O foco no avocado, segundo a filha do casal e atual sócia-diretora Ligia Falanghe Carvalho, veio depois que eles descobriram que a fruta tinha alto consumo na Europa.
O casal plantou inicialmente 30 hectares e hoje a segunda geração, que inclui os três irmãos de Lígia (Vitor, Tiago e Júlia), cultiva 1.200 hectares em Bauru (SP), Timburi (SP) e em Roca Sales (RS), com uma produtividade de até 12 toneladas por hectare. Além disso, mantém parcerias para exportação com cerca de 30 produtores de Minas Gerais, Paraná, Espírito Santo e Goiás, que somam mais 1.500 hectares.
“Investimos em irrigação por microaspersão para criar um microclima para a árvore não sentir tanto a temperatura. Agora, quando chega a 28 graus, a gente faz chover no pomar”, diz Carvalho, que espera fechar a safra deste ano com uma produção de 6.000 toneladas – acima da média anual da Jaguacy de 4 mil, e um faturamento de R$ 150 milhões, o dobro do ano passado.
Outra aposta foi a compra de 300 hectares no Rio Grande do Sul, visando estender a janela de produção que, tradicionalmente, coincide com a do Peru, maior produtor e exportador da América do Sul. A empresa já investe uma parte em lavouras precoces, mas com a produção gaúcha, que terá sua primeira colheita neste ano, espera oferecer o avocado para exportação também de novembro a fevereiro, época de menor oferta global e preços melhores.
Ligia Falanghe Carvalho, sócia-diretora da Fazenda Jaguacy
Divulgação
A empresa estima fechar o ano com a exportação de 800 contêineres (16.800 toneladas) para a Europa, Argentina, Uruguai e Chile e Índia.
Uma meta do setor é exportar avocado para os Estados Unidos, o maior importador da fruta, mas esse mercado ainda está travado por falta de acordos comerciais específicos. A Jaguacy, que diversificou a produção e comercializa também subprodutos do avocado, manda para os americanos um pequeno volume de polpa e azeite.
Atualmente, segundo a empresária, há muitos fundos de investimento interessados em entrar na produção do avocado no Brasil, assim como grandes produtores de outras frutas. “A produção deve crescer bastante nos próximos anos. O Brasil é apenas o 10º maior produtor mundial (ranking é liderado pelo México), mas tem potencial para ser o terceiro rapidamente. Só que para sobrevivência é preciso trabalhar com exportação porque o mercado interno ainda precisa ser desenvolvido”, diz Lígia Carvalho.
A Jaguacy emprega 300 pessoas na colheita e, além de um viveiro próprio com capacidade de produzir 100 mil mudas por ano em parceria com a sul-africana Westfalia, tem em Bauru um packing house para o beneficiamento e embalagem das frutas, com automação em 60% dos processos. A certificação Global Gap garante a rastreabilidade da produção e as certificações Grasp e Smeta cumprem as metas de responsabilidade social, segundo a empresa.
Colheita de avocado da Fazenda Jaguacy
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Boas expectativas
Rodrigo Stockler Barbosa, presidente da Abacates do Brasil, também é dono da Milênio Fruits, empresa que começou a investir em avocado em 2017 em Ibiá, no Triângulo Mineiro. Hoje, são 104 hectares plantados. Ele também cultiva 10 hectares de abacate tropical margarida, além de laranja. Neste ano, espera colher 850 toneladas de hass, com uma produtividade de cerca de 12 toneladas por hectare, considerando somente as áreas já produtivas.
No ano passado, exportou 20 contêineres para a Europa e esperava elevar o volume em 2026, mas uma chuva de granizo que atingiu a fazenda em novembro quebrou a produção e a exportação deve cair para cinco contêineres. Para 2027, projeta embarcar 35 cargas de 21 toneladas.
Segundo ele, a Milênio investe em irrigação, fertirrigação, monitoramento nutricional por análises foliares e de solo, manejo fitossanitário programado, acompanhamento técnico e controle de produtividade por talhão.
Pomar de avocado da da Milênio Fruits em Ibiá (MG)
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As boas perspectivas para o avocado têm atraído, nos últimos anos, novos produtores, como Adilson Penariol. Ex-presidente e atual diretor financeiro da Abacates do Brasil, Penariol se envolveu na atividade em 2020 ao assumir o cargo de CEO da Green Super Food, empresa chilena que já tinha fazendas de avocado na Colômbia e decidiu investir no Brasil.
Dois anos depois, ele saiu da companhia, se juntou a investidores e comprou propriedades em Cristina, no sul de Minas Gerais. Lá criaram a Avoprime, com 40 hectares de avocado inicialmente. Hoje são 110 hectares de cultivo, e o plano é chegar a 300 hectares nos próximos anos. Ele vai colher neste ano sua primeira safra, com uma produtividade estimada de 3 a 4 toneladas por hectare.
“A produção do avocado não tem a informalidade do abacate tropical, exige muito profissionalismo, mas permite formar mercado externo e cadeia de parcerias internacionais e também crescer no mercado interno”, destaca Penariol.
Com vida útil longa, o fruto pode viajar em contêiner, diferentemente do abacate tropical que só pode ser exportado a curtas distâncias de avião em caixas pequenas. “Além disso, 95% do consumo mundial de abacate é do tipo hass”, diz Penariol, acrescentando que a Avoprime já investiu cerca de R$ 17 milhões na cultura.
O grande gargalo do setor, segundo os produtores, é a questão da mão de obra porque o avocado exige colheita manual para preservar a qualidade da fruta, evitar danos mecânicos e garantir o padrão exigido pelo mercado de exportação.
Além de abrir novos mercados, uma meta do setor é desenvolver o mercado interno. A Abacates do Brasil faz campanhas e ações de degustação para “ensinar” o brasileiro a comer a fruta.
Baixa produtividade
O agrônomo Osvaldo Kioshi Yamanishi, professor de fruticultura na Universidade de Brasília (UNB) que trabalha há mais de 20 anos com o avocado, diz que a produção avança a passos mais lentos do que ele esperava no Brasil. Segundo ele, o país exporta o ano inteiro o que é consumido em apenas um dia nos Estados Unidos e várias empresas do Peru e da África do Sul exportam sozinhas o volume brasileiro.
O especialista cita muitos problemas que impedem um aumento mais significativo da produção no Brasil: o sistema trabalhista e a falta de políticas públicas restringem investimentos de fora, os produtores investem muito pouco em genética e mudas clonais, o que reduz a produtividade das árvores, o país só produz a fruta na época em que a oferta é maior no mundo e os pomares não são 100% irrigados.
“No Peru, onde grandes fundos de investimento entraram no avocado, pelo menos dez empresas têm mais de mil hectares, além de clima e atitude melhor que a das áreas de produção do Brasil e todos os pomares são 100% irrigados.”
No ano passado, o Peru exportou 722 mil toneladas, gerando mais de US$ 1,3 bilhão em receita (terceira maior receita de exportação do país, atrás do mirtilo e da uva). Neste ano, projeta chegar a 741.529 toneladas. Para comparar, o Brasil embarcou 25 mil toneladas, com receita de US$ 36,3 milhões.
Outro gargalo da produção brasileira, diz, é a falta de verticalização. A Jaguacy, que tem packing house e lagar, é uma exceção e, por isso, mesmo em anos com produtividade mais baixa, consegue bons resultados. Uma produtividade boa, segundo o professor, seria de 20 toneladas por hectare.
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