Política

Cunha usa rádios para articular pré-campanha a deputado em MG e é isolado por correligionários locais

A cada estreia da rádio 89 Maravilha FM em um município de Minas Gerais, Eduardo Cunha convida para a mesa redonda inaugural um advogado, um pastor e um político da cidade, em geral o prefeito.

Pré-candidato a deputado federal pelo Republicanos, Cunha tem a aquisição massiva de emissoras de rádio em cidades do interior de Minas como estratégia para voltar à Câmara.

Até o mês passado a rede evangélica já havia inaugurado frequências em 32 cidades. Sem explicar o cálculo do alcance, a rádio diz conseguir chegar a 500 municípios — Minas Gerais tem 853.

Na manhã do dia 20 de junho, estreia do estúdio em Pouso Alegre, sul mineiro, o ex-presidente da Câmara dividiu o programa em dois temas: a vitória da seleção brasileira sobre o Haiti, na véspera, pela Copa do Mundo, e o caso Master. Minimizou o que se tornara público da relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e tratou como grave o envolvimento do senador Jaques Wagner (PT-BA) com o mesmo.

À noite Cunha partiu para Varginha, a 127 km de Pouso Alegre, onde inaugurou outro estúdio e fez mais uma hora de conversa ao vivo. Ao fim da jornada voltou para Belo Horizonte, onde está baseado.

Nas transmissões ao vivo, o tom é incisivo. Já disse, por exemplo, que a emissora tem lado, o de Flávio Bolsonaro, que o visitou e deu entrevista. Para as redes sociais vão análises de conjuntura nacional.

Nas dependências da emissora o ex-deputado recebe prefeitos, vereadores e pré-candidatos. A interlocução com os representantes do interior é intensa. Cunha chega a receber até 15 políticos de diferentes municípios em um dia. Nas agendas externas, costuma visitar igrejas evangélicas.

Cunha destinou emendas parlamentares a 29 municípios mineiros, segundo investigação da PF (Polícia Federal). As verbas foram em nome da liderança do Republicanos na Câmara, mas apenas três municípios governados pelo partido foram contemplados. À Folha, o ex-deputado disse que o critério para distribuição não foi o partido que gere a cidade, mas o pedido de políticos locais.

O ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinou na semana passada o bloqueio de R$ 6,15 milhões de bens de Cunha, mesmo valor que a PF afirma terem sido repassados por ele.

Cunha articula sozinho em Minas, dizem observadores. Antigos aliados e atuais correligionários ouvidos pela reportagem sob reserva buscaram isolá-lo. Dizem que não o visitam, não telefonam e só o encontram casualmente, em agendas.

Euclydes Pettersen, presidente do diretório estadual do Republicanos, tem sofrido pressão interna para conter o avanço de Cunha sobre o interior, onde outros deputados da legenda já possuem bases eleitorais montadas. Pettersen nega.

“Não tenho como dar canetada [para barrar a pré-candidatura], não tenho esse poder. O nome dele será colocado à aprovação popular”, diz.

O presidente da legenda minimiza os efeitos do desembarque de Cunha em área de correligionários.

“Cada deputado faz sua agenda, corre atrás, tem seu reduto eleitoral, a gente não fica monitorando, e eu acho que o Eduardo vai nacionalizar o debate, vai ser um candidato ‘contra o PT’, na linha de ‘fui o único que consegui tirar o PT’.”

Cunha foi presidente da Câmara durante a votação que culminou no processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Foi preso em 2016 no âmbito da Operação Lava-Jato, acusado de ser beneficiário de propinas em contratos da Petrobras e por suposto risco à investigação.

Ele ficou em regime fechado até 2021 e teve sentenças anuladas em 2021 e 2023.

Em 2022, foi candidato a deputado federal por São Paulo, filiado ao PTB, mas não foi eleito.

A chegada de Eduardo Cunha a Minas Gerais também causou crise no Podemos. Ele tentou se filiar ao partido no início do ano, mas foi rejeitado. Ex-aliado de Câmara, o ex-deputado Marcelo Aro (PP) disse à época que caso Cunha entrasse, seu grupo dentro do partido, chamado por ele de “turma”, debandaria.

A filiação de Cunha era um desejo do vice-presidente nacional da legenda, Pastor Everaldo.

Eduardo Cunha já atuou no setor de rádios do Rio de Janeiro, onde nasceu e começou a carreira política. Foi sócio da rádio Melodia, ainda hoje no ar, e fez parceria para abrir outras rádios evangélicas pelo país.

A deputada Dani Cunha (PL-RJ), filha de Eduardo, mantém no Rio a base eleitoral da família. Ele mudou o domicílio para Minas nesta eleição para não rivalizar com os votos da filha, também pré-candidata.

Nas visitas ao Rio, Cunha costuma cumprir agendas com a filha em igrejas evangélicas.

Procurado para comentar sua tática de pré-campanha, Cunha não retornou.

Folha de São Paulo

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