Derrota do Brasil na Copa retoma minhas próprias quedas e vitórias

Enquanto voltava a pé da academia, observava o clima de pós-festa instaurado nas ruas. Era segunda-feira, um dia depois da eliminação do Brasil. Bandeiras rasgadas, enfeites jogados no chão. As pessoas com quem cruzava não estavam nada felizes. Tínhamos uma derrota nas costas. Naquela manhã me forcei a acordar cedo, pois a musculação me ajuda a desfazer o nó na garganta.
Como seguir acompanhando os jogos sabendo que saímos nas oitavas de final? Ouvia as pessoas xingando jogadores, técnico. Pouco se falava em aguardar a próxima Copa do Mundo. Claro, ela está longe. Pisei numa bandeira e me lembrei dos diversos tombos que tomei. Momentos em que tive de me erguer, mesmo sabendo que a derrota e seus resquícios iriam permanecer durante um bom tempo, algumas por mais de quatro anos, algumas até hoje.
Já disse aqui, muitas vezes, que tive certeza que não conseguiria recomeçar. Filmes queimados no trabalho, rompimento com amigos e aquela ressaca física e moral. Como dá para levantar a cabeça nessas horas? Naquela segunda-feira, os restos de tristeza e descrédito eram visíveis nas pessoas e foram tomando conta de mim.
Na minha primeira internação, eu me sentia presa, sem futuro, e achava que minha família pensava o mesmo. Estar ali era uma derrota. “Vamos, Alice. Você consegue”, meu irmão me dizia quando ia me visitar. “Tudo está igual, nada mudou. Agora é você que tem de sair dessa.”
Foram sete dias infernais. As enfermeiras mal acreditavam que eu estava ali. Um porre, afinal, o que era um porre perto de tanta gente pior? “Você está aqui como espiã”, disse-me uma delas. Eu não queria estar lá, mas foi uma decisão familiar. A internação me ajudou a brecar algo pior.
Não foi a única derrota —considero cada internação uma queda brusca da qual era doloroso me levantar. Mexe muito com o organismo e com a autoestima. Acredito que o suicídio passou pela minha cabeça porque eu não tinha mais forças nem para saber por onde recomeçar. Colocar um fim no sofrimento e desaparecer talvez fosse uma solução. Não fiquei sozinha, não me deixaram desistir. Fui atendida por um arsenal de médicos, psiquiatras e psicólogos.
A derrota da seleção me transportou para aquele estado mental. Todos ao redor estavam tristes ou desamparados. Pensei em Bruno Guimarães, que errou o pênalti logo no início da partida. A nação inteira ficou inconformada, mas aquele deslize deve ter sido motivo de tristeza particular para o jogador.
Apesar das minhas derrotas, dos afastamentos por conta das internações, me reergui. Confesso que não sei como. A força tem que vir de dentro, mesmo tendo um time te dando a mão. O sentimento particular de derrota deve ser revertido com pequenos feitos. E cada um deles é uma prova de que a vida estava ali, me chamando para mais um desafio.
Não caí uma vez, caí milhares de vezes, e todo dia seguinte era a ressaca que prevalecia. Uma tristeza que não cabia em mim e que só foi se dissolvendo com minha própria fé. Em mim, no futuro. Os obstáculos com os quais tive que lidar eram enormes. Olhar para a frente acreditando que as coisas iriam melhorar era desafiador, mas não me restava outra saída. Levantando as bandeiras e já pensando em outras comemorações.
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Informação
Folha de São Paulo



