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Desembolsos do crédito rural caíram 12% na safra 2025/26



Pressionados pela alta no endividamento rural e com maior aversão ao risco diante dos problemas climáticos e financeiros do campo, bancos pisaram no freio na concessão de financiamentos na safra 2025/26, encerrada na semana passada. O desembolso de recursos das linhas tradicionais do crédito rural recuaram 12% na comparação com a temporada anterior. É a segunda safra seguida de queda nos desembolsos.
Foram concedidos R$ 338,9 bilhões a pequenos, médios e grandes produtores, com retração nos montantes liberados para custeio (-13%), investimentos (-17%) e comercialização (-25%) e expansão na industrialização (54%). Os dados são do Banco Central, extraídos em 2 de julho a pedido do Valor.
A queda se concentrou nos valores liberados a grandes produtores, que acessaram R$ 210,1 bilhões, 19% menos que na safra anterior. Esse público tem se financiado cada vez mais pela emissão de Cédulas de Produto Rural (CPRs). Até maio, haviam sido liberados R$ 185,1 bilhões por esses títulos. O governo ainda não tem os dados consolidados até junho. A expectativa é que os números fechem entre R$ 200 bilhões e R$ 210 bilhões.
As concessões de crédito para a agricultura familiar e os médios produtores tiveram ligeiras altas de 3% e 5% respectivamente. Foram liberados R$ 67,4 bilhões pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e R$ 61,4 bilhões no Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor (Pronamp).
Do montante total, R$ 181,3 bilhões foram liberados para custeio, R$ 84,9 bilhões para investimentos, R$ 37,8 bilhões para comercialização e R$ 34,9 bilhões para industrialização.
O desembolso na safra 2025/26 inclui ainda cerca de R$ 47 bilhões de operações realizadas para a renegociação de dívidas rurais, autorizadas pela Medida Provisória 1.314/2025.
O valor liberado via linhas de crédito rural na safra 2025/26 é quase 20% menor que o desempenho do ciclo 2023/24, quando foram emprestados R$ 421,8 bilhões aos produtores rurais.
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Os dados do Banco Central mostram que nas últimas duas temporadas diminuiu a participação dos bancos públicos (-29%) e privados (-25%) na concessão dos financiamentos do Plano Safra e aumentou a fatia desse mercado ocupada pelas cooperativas financeiras (+15%).
Para Ivan Wedekin, consultor em crédito rural e ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, chamou a atenção o recuo acentuado dos valores destinados ao custeio nas últimas duas temporadas. O governo justifica que os recursos têm sido liberados para essa finalidade por meio das CPRs. “Mais uma vez o Plano Safra mostra que é uma certa ilusão estatística. Incluíram as CPRs no cálculo do volume de recurso de crédito rural, mas elas não são uma linha de crédito. A CPR é um título de crédito emitido pelo produtor e que não entra na contabilização como empréstimo do crédito rural no Banco Central”, disse.
Para 2026/27, o Ministério da Agricultura incluiu R$ 38,5 bilhões de programas independentes e que não são de fontes tradicionais do crédito rural no bolo do Plano Safra.
“Não é mais possível fazer política agrícola sem considerar que todo produtor vincula o resultado da sua produção a diversas destinações e financiadores. Também é preciso reconhecer a ineficiência alocativa do subsídio público na equalização de encargos. O Tesouro Nacional não é mais motor da atividade produtiva rural, é freio de mão”, disse José Carlos Vaz, consultor jurídico do Agronegócio e também ex-secretário de Política Agrícola do Ministério.
Para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), os bancos têm “escolhido a dedo” para quem vão emprestar. A maior seletividade e cobrança por mais garantias empurraram o produtor para o mercado privado. “A questão é que, mesmo nesse mercado, as coisas também estão mais difíceis. Vemos um clima geral de muita precaução”, disse Guilherme Rios, assessor de Política Agrícola da entidade.
Gráficos mostram desempenho do crédito rural na safra 2025/26
Banco Central
Com a manutenção da restrição financeira em 2026/27, a CNA não descarta redução de área plantada no país. “Esta safra vai exigir muita habilidade e jogo de cintura na sua condução. O que se escuta dos produtores é que eles estão reduzindo a área plantada e optando por pacotes tecnológicos mais enxutos. E não é só a dificuldade de conseguir crédito rural que pesa nessas decisões, mas também a falta de ferramentas eficazes para gerenciar riscos”, acrescentou Rios.
A Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) disse que a conjuntura mais problemática no entorno dos produtores levou a uma reprogramação no campo. “A capacidade de pagamento dos agricultores foi reduzida e as taxas de juros elevadas, junto, ainda, a um câmbio volátil e, adicionalmente, a intensificação das tensões comerciais por conta de conflitos geopolíticos”, afirmou Rodolfo Jordão, coordenador do ramo agropecuário da entidade.
Para a safra 2026/27, a OCB prega cautela. “O que se observa na ponta são pacotes tecnológicos mais conservadores, redução nos investimentos de médio e longo prazo e cautela nas decisões inerentes à expansão de área por meio de arrendamento e novas infraestruturas no campo”, afirmou Jordão.


Globo Rural

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