Em Brasília, produtor investe para levar pirarucu do tanque para a mesa


Com o objetivo de oferecer uma carne de peixe premium em seu restaurante em Brasília, Marcos Boechat Lopes de Souza iniciou há dois anos a recria e engorda de um peixe incomum para a região: o pirarucu, espécie nativa da Amazônia que chega a dois metros de comprimento e pode pesar mais de 100 quilos, é conhecida como o bacalhau brasileiro.
“Eu já era criador de bovinos, suínos e ovinos para servir carne premium no meu restaurante e não queria oferecer uma commodity de peixe como a tilápia. Por isso, fui em busca de uma novidade, mas enfrentei vários desafios”, diz Boechat, que já investiu na empreitada de R$ 800 mil a R$ 1 milhão.
O plano é abater os primeiros peixes em um ano, com peso entre 20 e 25 quilos, em frigorífico terceirizado. Atualmente, eles têm 18 quilos.
Para iniciar a produção, Boechat foi atrás de assistência técnica e de alevinos de pirarucu do criatório do produtor Junior Costa, de São Mateus, no Espírito Santo, que trabalha com a espécie há 20 anos.
A estrutura na zona rural de Brasília tem oito tanques escavados com revestimento de ardósia com capacidade para 2.500 peixes e estufa, como aquelas de hortaliças, para manter a temperatura por volta de 28 graus, já que o pirarucu não suporta o frio, que reduz sua taxa de crescimento. No ano passado, ainda sem a estufa, o produtor perdeu parte dos peixes.
A alimentação vêm de empresas como a ADM, que produz ração para peixes carnívoros como o pirarucu e pintado.
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Criatório
O capixaba Idalino Costa dos Santos, mais conhecido como Junior Costa, formado em contabilidade, conta que se tornou um especialista em pirarucu observando diariamente o comportamento dos peixes nos tanques. Ele instalou seus primeiros tanques em São Mateus, no norte do Espírito Santo, há 20 anos, visando a criação e engorda de tilápia e tambaqui.
“Na época, não tinha mercado formado para a tilápia. Conheci o pirarucu em um aquário, me apaixonei pela coloração da pele do peixe, iniciei um trabalho de pesquisa e descobri que esse gigante da Amazônia tinha muito potencial para gastronomia e ainda mercado para exportação de pele e escamas.”
Junior diz que foi um grande desafio formar os casais para reprodução porque colocava dois ou três peixes de cada sexo no tanque para tentar formar o casal e havia muitas brigas, inclusive no ritual de acasalamento. Era comum ver pirarucus de 150 quilos pulando fora do tanque nessas brigas. Em sua observação viu que, quando os casais se formam, eles matam qualquer outro pirarucu que estiver no tanque.
Junior Costa investiu em um criatório de pirarucu no Espírito Santo
Divulgação
Atualmente, ele mantém 30 casais de reprodutores de terceira geração, de 80 quilos a 210 quilos cada um, que chegam a ter de 1,60 m a 2,30 m. Toda a reprodução é feita de forma natural, sem indução hormonal, no período de novembro a março, em 30 tanques escavados. Aclimatados ao clima da cidade, eles não precisam de estufas como em outras regiões do país com mais frio.
“Há técnicas para indução hormonal da reprodução, mas vejo muita dificuldade em tentar manejar animais de 150 a 200 kg. Ele bate muito, tenta pular. O manejo é inviável e muito perigoso.”
A capacidade anual de produção de alevinos do criatório é de 200 mil filhotes por ano. Cada casal, dependendo do tamanho e da nutrição, gera de 1 mil a 12 mil filhotes por reprodução e faz até cinco reproduções por ciclo. Com 5 dias dias, os filhotes são retirados dos tanques dos pais e vão para o laboratório, onde vão aprender a comer ração. Com 20 cm, já estão resistentes e podem ser comercializados.
Os casais são alimentados com ração e também recebem tilápia viva, que Junior cria em outros tanques só para a alimentação dos gigantes. Para fornecer mais informações aos compradores de alevinos, o produtor iniciou testes de engorda comercial com 250 pirarucus, que vão virar matrizes no futuro.
Receita para a engorda
Para quem deseja iniciar a engorda comercial do pirarucu, o profissional sugere um projeto mínimo de 4 tanques suspensos de 100 mil litros cada um, com estufa e capacidade para 300 animais. Se a região não tiver variação grande de clima, dá para instalar os tanques na terra. A recirculação de água para eliminar restos de ração e dejetos é fundamental para manter a qualidade da água e o crescimento do peixe.
Seis meses antes da chegada dos alevinos, o produtor deve colocar tilápias no tanque, que vão se reproduzir e servir de alimento futuro para o pirarucu. Junior diz que, no criatório, os alevinos são ensinados a comer ração para não morrer de fome, já que a engorda com 100% de tilápia é inviável comercialmente.
O investimento com a estrutura, estufas e alevinos estima, passa de R$ 300 mil.
No criatório, o alevino é vendido por R$ 1 por centímetro – ou seja, o tamanho padrão sai por R$ 20 a unidade. Se o produtor quiser investir um pouco mais para levar um peixe mais forte que não vai gerar nenhuma perda, pode comprar a unidade de 1 quilo por R$ 50 a R$ 60.
Os peixinhos são transportados em caixas como as usadas para tilápia _o pirarucu não precisa de oxigenação na água porque tem respiração aérea. Junior diz que já transportou alevinos para o interior do Maranhão, em uma viagem de seis dias e não houve perdas.
Também é importante planejar a comercialização, ou seja, ter para quem vender a produção. O ideal, diz, é abater o peixe com 20 quilos para aproveitar também o mercado exótico da pele para a fabricação de bolsas e sapatos e das escamas para a produção de bijuterias.
Licenças
Além do clima e da reprodução, um grande desafio na produção do pirarucu é a questão das licenças ambientais. Junior diz que instalou seu criatório em região alta, fora de área de APPs, nascentes e longe de rios para não ter o risco de escape do peixe para a natureza. Os tanques são profundos e com barragem na lateral.
Desde que instalou o negócio, o produtor vem negociando a concessão das licenças municipal, estadual e federal. Ele diz que, no Estado, até quatro hectares de lâmina d’água não haveria necessidade de licença, mas o documento se torna necessário por envolver o pirarucu, que tem controle do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
“Nosso ambiente é controlado e seguro. Seguimos todas as normas e comprovamos que não há risco de escape do pirarucu para a natureza. A licença municipal já saiu e a estadual está a caminho. Houve um entrave com a norma do Ibama publicada este ano que autoriza a captura e abate do pirarucu em rios fora do seu habitat natural, a Amazônia. O órgão ambiental do Estado achou que estavam proibindo a criação em cativeiro, mas interpretaram errado e o Ibama esclareceu que a norma não atinge pirarucus criados em cativeiro.”
Junior tem clientes nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Tocantins, Pernambuco, Goiás e Brasília. Santa Catarina já iniciou testes para engorda. No Espírito Santo, ainda não há engorda comercial, mas há produtores interessados que esperam a solução da licença estadual.
Ibama
A instrução normativa do Ibama, publicada em 19 de março deste ano, classifica o pirarucu como espécie exótica invasora fora de sua área natural, onde deve ser capturada e abatida.
Segundo o órgão, o peixe é um predador de topo de cadeia, com hábito alimentar generalista e oportunista, capaz de ocupar diferentes nichos do ambiente aquático e impactar o conjunto de espécies de peixes que habitam as regiões onde ele não ocorre naturalmente.
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