Em cartaz com primeiro solo, Taís Araujo se reinventa no teatro e revela: “Me recuso a parar por aqui”

Após intervalo de cinco anos, Taís Araujo (47) está de volta ao teatro. Com mais de três décadas de carreira e inúmeros sucessos na TV, no cinema e nos palcos, a atriz se desafia no solo Mudando de Pele. “O teatro, para mim, é quase uma volta para casa. Sinto necessidade de voltar. Quando estou meio sem saber o que fazer, sei que o teatro vai me dar boas respostas”, diz a estrela, em papo exclusivo com CARAS.
Fora da zona de conforto
Após muitas pesquisas para encontrar um texto que mexesse com seu interior, ela encontrou o de Amanda Wilkin. A história narra a jornada de Mayah, uma mulher que passou muito tempo se adaptando para pertencer a lugares que negam sua existência e que decide sair em busca de sua própria identidade. “Achei ótimo, contemporâneo. Eu já me vi tantas vezes nesse lugar. Ou por comodismo ou por estar incomodada. Por exemplo, por que decidi agora? Eu tenho uma carreira tão próspera, tão imensa, tão maravilhosa, sou tão orgulhosa dela. Mas me recuso a parar por aqui. Tenho muita coisa para fazer ainda. Quero papéis que me deslumbrem, que exijam de mim”, conta a artista, que é dirigida por Yara de Novaes (59) e acompanhada em cena por Dani Nega e Layla, responsáveis pela trilha sonora. “Foi um desejo muito pessoal e genuíno de fazer essa peça. Uma escolha exclusivamente minha, o que deixa tudo mais arriscado”, avalia ela, aos risos, mas orgulhosa do espetáculo que, após sucesso no Rio de Janeiro, está em cartaz em São Paulo, no Teatro Raul Cortez.
Com inúmeros trabalhos na bagagem, Taís vive uma novidade ao assumir um solo pela primeira vez. “A gente não muda no conforto, a gente muda no incômodo”, acredita. Antes da estreia, ela passou por todos os tipos de sensação: alegria, medo e nervosismo. “Eu pensei: ‘Pra quê? Eu podia estar viajando, estudando em casa, mais calminha’. Mas lembro que, quando falei isso para a atriz Dani Barros, ela me disse que, se não for assim, a gente não salta. E ela tem razão!”, analisa a carioca, passando longe dos nervosismos na noite de estreia. “A gente trabalhou muito, foram muitos dias de ensaio. E os dois ensaios abertos que fizemos me ajudaram a perder o nervosismo. Nunca mais estreio sem fazer ensaio aberto”, afirma.
Identificação
Na história, ao abandonar um trabalho opressor e um relacionamento que não ia bem, sua personagem, Mayah, rompe com padrões sociais, emocionais e profissionais e inicia uma jornada de autoconhecimento. Durante o processo de redescoberta, entende quem ela é, o que pensa e do que gosta. “Me vejo nela o tempo inteiro. Já estive nesse lugar várias vezes e acho que ainda vou estar”, avalia a atriz, acreditando que todo mundo passa por situações parecidas na vida. “Quando está acomodada, dá vontade de mudar. E quando está incomodada, também. Quando li, me identifiquei com a Mayah em muitos lugares. Ela é mais nova do que eu, mas sou uma atriz inquieta. Isso faz com que eu queira descobrir outras possibilidades. Não acho que seja uma qualidade exclusiva de quem trabalha no meio artístico. É da vida, uma necessidade de mudar”, analisa ela.

Ao longo do espetáculo, a personagem conhece Mildred, uma senhora jamaicana de 90 anos que, por meio de sua vivência, a ensina sobre identidade. Em determinado momento, ela até diz que Mayah descobriu que era preta ontem. Ao ser questionada se já passou por esse processo de reconhecimento, Taís volta ao passado. “A primeira vez foi quando fui para a escola… eu vi que as pessoas eram diferentes de mim. É quando você descobre que é o outro, quando te colocam nesse lugar. A sociedade faz isso o tempo inteiro com pessoas negras e mulheres. E quando eu descobri autoras negras, eu me redescobri negra num lugar muito legal, de acolhimento e identidade, o local que estou até hoje”, conta ela, citando Neusa Santos Souza (1948-2008) e Simone de Beauvoir (1908-1986) como nomes importantes para a sua jornada profissional e pessoal.
Referência
Considerada um dos maiores nomes da sua geração, Taís construiu uma carreira sólida, quebrou padrões e conquistou espaços sem deixar de defender quem é. A carioca pode ser vista como uma espécie de Mildred para quem está chegando, já que atrizes como Bella Campos (28), Jeniffer Nascimento (32) e Duda Santos (25) a citam como uma referência. Mas a estrela prefere se colocar no lugar de amiga. “Eu estou aqui para elas e elas sabem disso. Adoro trocar com elas, a gente conversa sobre várias coisas e eu também aprendo muito. E faço questão de estar, porque já passei por tanta coisa, foi tanta coisa construída, tanta coisa legal. Elas, de fato, não precisam passar por metade dos perrengues que passei. Não têm que passar mesmo!”, defende.

Na peça, a personagem afirma: “Diversidade nunca foi prioridade”, referindo-se à antiga empresa em que trabalhava. A frase serve para muitas áreas, mas, aos poucos, isso tem mudado. “A gente vive num País muito diferente do que vivia há 15 anos. Já foi melhor, mas tem uma regressão e a gente precisa ficar atento para não dar passos para trás”, observa.
Se durante muitos anos a artista foi a única atriz negra a protagonizar novelas, hoje ela celebra o espaço conquistado por muitas. “Não tinha só eu. Tem várias meninas da minha geração. O que acontecia era uma prática comum no Brasil: você pega uma única pessoa de exemplo. Isso tem um nome, chama tokenismo. Você pega uma pessoa para dizer: ‘Olha, tem essa aqui’. E, na verdade, é uma mentira”, explica a estrela, que, quando percebeu o que estava acontecendo, resolveu não compactuar. “O tempo inteiro eu ficava fazendo quase uma campanha, falando: ‘Tem que chamar mais gente para isso’. Eu fiz capas de revista. E cadê as meninas para fazer também? Cadê as outras atrizes negras?”, recorda. “Quando me chamavam para apresentar um negócio, eu dizia que já tinha apresentado ano passado, para chamar fulana naquele ano. Vira e mexe eu fazia isso, porque eu não estava acreditando naquilo, porque uma só não representa ninguém. É só a exceção. Eu me via sendo a exceção e eu não estava confortável naquele lugar, porque não é o mundo em que eu acredito, não é o mundo que eu quero para os meus filhos, não é o mercado que eu quero, nem o País que eu quero. É começar a trabalhar pelo contrário disso, para que tenha a possibilidade para todos”, diz.

Geração Z
Na história, Kemi, uma jovem que não pede licença para existir, também inspira Mayah nesse processo de entender seu valor e identidade. A Geração Z também inspira a atriz. “Tem uma coisa na Geração Z que é muito bonita, que é simplesmente ser. Que é essa liberdade que foi conquistada pelas outras gerações, porque eles não acordaram assim: ‘A gente é porque a gente se banca’. Não, se banca porque todo mundo conquistou antes para vocês poderem se bancar hoje, ok (risos)? Acho que tem isso na Geração Z e que talvez eles não entendam. Você pode usar esse cabelo hoje porque mulheres não puderam usar antes, tiveram que se adaptar para viver. Hoje, pode se usar essa roupa, mas antes não. Mas eu gosto dessa geração, acho bonito se bancar. É maravilhoso como eles lidam com as coisas”, elogia ela, que admira a coragem dos mais jovens. “Eu tenho vários medos que falo:‘Aí, meu Deus do céu, será que vai dar?’. E acho que eles são mais livres nesse sentido”, observa.
Aberta às transformações, a estrela está em eterna e constante evolução e, parafraseando a peça, também está sempre mudando de pele. Sua versão 2026, por exemplo, é mais calma. “Estou tranquila, serena, deixando as coisas acontecerem. Era primordial para mim fazer essa peça e desenvolvê-la. Agora penso nos meus planos pessoais, meus filhos, meu marido e em escolhas que façam sentido artisticamente”, finaliza ela, realizada com sua trajetória de vida.
Caras



