Política

Flávio Bolsonaro usa crise de Moraes para tentar impulsionar ato de 7 de Setembro

Reveladas a menos de uma semana do ato bolsonarista do 7 de Setembro, as mensagens entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro colocaram o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) no centro das manifestações e, na opinião de aliados de Flávio Bolsonaro (PL), deram força à convocação popular.

A campanha do presidenciável aposta no sucesso do protesto na avenida Paulista, em São Paulo, para sair do empate técnico nas pesquisas e assumir o favoritismo no segundo turno da eleição e, por isso, congressistas do PL não querem perder de vista também a crítica ao governo Lula (PT). Rapidamente, o mote nas redes passou a unificar as duas pautas em “fora, Lula; fora, Moraes”.

Nesta terça-feira (1º), o ministro André Mendonça, relator do processo do Banco Master, suspendeu o sigilo de um relatório da Polícia Federal que detalhou as ligações de Moraes com Vorcaro. Em reação, Flávio e seus apoiadores passaram a reforçar a ligação entre Lula e o ministro. Ao mesmo tempo, o presidenciável adota certa cautela para não ser classificado como antidemocrático ao cobrar a saída de Moraes do STF.

A bancada do PL anunciou um novo pedido de impeachment de Moraes no Senado e cobra investigação do ministro, de Andrei Rodrigues, chefe da PF, e de Paulo Gonet, procurador-geral da República, também implicados no escândalo.

Flávio vinha evitando transformar o impeachment de ministros em sua principal proposta, deixando esse embate para os candidatos ao Senado, mas os fatos se impuseram, dizem integrantes da sua equipe.

Seus auxiliares agora afirmam que o antagonismo a Moraes ganhou outro peso na campanha e que o presidenciável vai insistir para que ele renuncie, seja afastado ou sofra um impeachment —apesar de o próprio Flávio evitar responder sobre sua relação com Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, que contará a história de seu pai.

Em um vídeo de convocação do 7 de Setembro, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) chama Moraes de verme e diz que é importante ir às ruas para provocar reações.

“As imagens [das manifestações] giram o mundo e servem de alicerce, de base para futuras ações, como o retorno da Lei Magnitsky, impeachment ou mesmo a eleição de uma bancada de senadores comprometida com o impeachment de corruptos no STF”, disse.

Flávio, contudo, seguiu outra linha ao criticar Moraes e defender o STF em discurso feito no plenário nesta segunda. Para o entorno do presidenciável, o senador manterá o cuidado, ao discursar no ato de 7 de Setembro, de não atacar instituições, posição que passou a ser seguida por outros candidatos do PL.

Aliados afirmam que não se trata de cálculo eleitoral, apesar de admitirem preocupação em não repetir as ameaças à democracia feitas por Jair Bolsonaro (PL) em atos anteriores.

O palanque na avenida Paulista, porém, vai reunir bolsonaristas de todas as alas –das mais pragmáticas às mais radicais. Justamente para dar corpo ao protesto, a estratégia foi a de unificar a manifestação em São Paulo em vez de pulverizar os atos pelo país.

Ainda assim políticos do PL admitem receio de que o ato seja esvaziado, afirmando que há desânimo dos bolsonaristas com a falta de perspectiva de um impeachment de Moraes e que o frio previsto para a capital paulista pode espantar o público.

Além de Flávio e congressistas do PL, são esperados nomes como Tarcísio de Freitas (Republicanos), Ricardo Nunes (MDB), Silas Malafaia, Nikolas Ferreira (PL-MG) e ainda há dúvida sobre a presença da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL).

“De todas as manifestações que eu já fiz contra Moraes, esse vai ser meu mais duro discurso”, promete Malafaia, acrescentando que as mensagens reveladas obviamente impulsionam a manifestação. “Você não derruba um Poder da noite para o dia”, disse à Folha.

Antes da crise política deflagrada nesta segunda, os vídeos bolsonaristas de convocação para o 7 de Setembro traziam congressistas falando em “resgate da nação”, “desgoverno Lula”, “roubalheira”, “custo de vida”, “liberdade” e “independência”. O mote era “agora ou nunca”.

Nesta quarta-feira (2), Malafaia divulgou um novo vídeo com a palavra de ordem atualizada para “fora, Lula; fora Moraes”.

A leitura de integrantes do PL e da campanha é de que a ligação entre Lula e Moraes é inequívoca, sendo que o ministro age para beneficiar o petista e prejudicar os bolsonaristas no pleito, assim como teria feito em 2022.

“Tudo é um tema só. Nas urnas, vamos decidir qual time vai gerir o Brasil, se vai ser a organização criminosa do Lula-STF-Congresso ou se vai ser Flávio Bolsonaro, que vai resgatar o país”, disse o deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP) à reportagem.

Em entrevista à imprensa nesta quarta, o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), falou em amizade próxima entre Lula e Moraes.

“Agora não adianta vir querer se descolar do Moraes, como estão pensando fazer. […] Por que Lula ainda não afastou o Andrei para que ele possa ser investigado? A confiança do presidente Lula no Andrei, no Alexandre de Moraes, no Gonet é altamente comprometedora”, disse.

Seguindo Flávio, Sóstenes afirmou ter “responsabilidade no PL de individualizar condutas no CPF e não nas instituições”, defendendo o STF, a PF e o Ministério Público.

“Muita gente quer nos misturar dizendo que a gente não respeita a instituição, mas nós somos os que mais respeitamos a democracia. Vamos continuar defendendo as instituições brasileiras, mas vamos cobrar que os CPFs sejam punidos porque entendemos que os fatos são graves”, disse à Folha.

Sóstenes afirma ainda que a indignação com Moraes deve motivar a população a comparecer ao 7 de Setembro, mas pondera que os bolsonaristas já têm perdido a esperança.

“Entendemos também que há um desânimo na população, porque a gente vem com essa luta contra o STF há muito tempo e nada acontece, parece que os ministros do STF são verdadeiros deuses. Não acredito que vamos ter recorde de população, acho que a gente terá uma grande adesão, mas não será a maior de todas como gostaríamos que fosse”, completou.

Folha de São Paulo

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