O avanço do outsider: Renan Santos defende cartilha ultraliberal e não poupa críticas a Lula e a Flávio

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No dia 4 de maio de 2004, estudantes se aglomeraram no Largo de São Francisco, que abriga a tradicional Faculdade de Direito da USP, para ouvir uma figura pouco convencional para aquele espaço: Inri Cristo, um místico que se tornou popular nos anos 2000 fazendo pregações à imagem e semelhança do Messias. O responsável pelo ato, um jovem muito magro, de cabelo comprido, tocou a guitarra que embalou uma paródia de Jesus Cristo, de Roberto Carlos, não sem antes discursar ao microfone. Agradeceu a quem comprou a rifa para viabilizar o evento, afirmando que estavam ajudando a “reerguer a faculdade”, que estava ficando “chata” por causa de “grupos babacas”. O jovem provocador, que não concluiu um dos cursos superiores mais concorridos do país, hoje quer chegar ao Palácio do Planalto. Trata-se de Renan Santos, fundador do Movimento Brasil Livre (MBL). Pré-candidato do Missão, ele nunca disputou cargo eletivo, mas já ultrapassa, em algumas pesquisas, nomes experientes da política, como os ex-governadores Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD).
O episódio com Inri Cristo é narrado por Renan em um vídeo em seu canal do YouTube no qual, por oito minutos, fala de si em terceira pessoa. Nascido em 1984 na Zona Leste paulistana, passou a juventude trabalhando com o pai, um advogado especializado em recuperação de empresas. Na onda de protestos contra Dilma Rousseff, Renan e outros jovens criaram, em 2014, o MBL, que capitalizou o apoio da juventude à direita usando o conflito como método e com intensa exploração das redes sociais. O “grupo de desajustados” (como os fundadores falam de si em um livro lançado em 2019) elegeu seus primeiros parlamentares em 2018, abrigados em outras siglas, até conseguirem criar o Missão, em 2025.
Renan Santos faz barulho na campanha apostando em uma cartilha de direita ultraliberal, à la Javier Milei, uma fonte de inspiração para o MBL. Redução da maioridade penal, guerra ao narcotráfico, enxugamento do Estado, redução de impostos, combate à corrupção e antipetismo são algumas das bandeiras que compõem os seis volumes de O Livro Amarelo, uma escritura programática do Missão vendida a 120 reais cada. Além do partido, o movimento tem uma marca, a Valete, que estampa produtos e tem uma revista mensal. “Milei e Renan têm vários pontos em comum, como a crítica da política tradicional, o tal do ‘sistema’. São contra negociações, contra barganhas e contra os partidos, favoráveis à ideia de um líder forte e de que a política tradicional já deu o que tinha que dar”, avalia o cientista político e professor da FGV Eduardo Grin. O outsider do Missão, por exemplo, atira tanto em Lula quanto em Flávio Bolsonaro, a quem chama de “centro-direita”.
O caminho traçado pelo líder do MBL até aqui não foi isento de polêmicas. Ele foi denunciado pelo crime de lavagem de dinheiro em 2020 (por conta de negócios envolvendo a empresa da família), mas a Justiça não aceitou a denúncia do Ministério Público. Em 2021, uma jovem fez um boletim de ocorrência contra ele por estupro, mas se retratou dois meses depois, engavetando o caso. Desde o ano passado, tem batido à porta da Justiça com pedidos de indenizações contra quem o chamou de “nazista” e “fascista” nas redes. O estilo beligerante nas redes também lhe rendeu um bom número de processos.

Apesar de ter 42 anos, só três a menos que Flávio Bolsonaro, Renan capitaliza a guinada de parte dos jovens à direita. Uma pesquisa recente da AtlasIntel aponta que, entre os eleitores com 16 a 24 anos, ele dispara para 37,9%, superando Flávio e Lula. “Neste zeitgeist global, um alinhamento automático da juventude com a esquerda se perdeu. Há uma divisão desse segmento”, avalia a cientista política Mayra Goulart, da UFRJ. Embora o MBL tivesse nomes nacionalmente mais conhecidos, Renan foi escolhido por ter mais autoridade. “É um dos que mais têm legitimidade frente à militância. Ele sempre foi um gerente do MBL”, diz o deputado federal Kim Kataguiri (SP), talvez a figura mais conhecida do partido. A tônica da espontaneidade, muitas vezes à beira do nonsense, deu o tom também na escolha do vice, o coronel reformado da PM gaúcha Aroldo Medina, feita de supetão em evento em Caxias do Sul.
À frente de um partido nanico, Renan tem feito vaquinha (arrecadou 1,1 milhão de reais) e viajado o país para dizer que é contra Lula e está à direita de Flávio, mas pouco ameaça a polarização. No entanto, o crescimento expressivo, sobretudo entre os mais jovens, projeta o político na cena nacional e planta sementes para as eleições de 2028 e 2030, o que condiz com o projeto de longo prazo abraçado por ele. “Não sou um aventureiro”, disse ele a VEJA. Renan Santos tem razão: está mais para franco-atirador da eleição de 2026.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003
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