O que os brasileiros realmente querem da democracia?

Esquerda, centro e direita veem a democracia da mesma maneira? O que esperam dela, além do direito de votar nos governantes? Uma pesquisa qualitativa do “Monitor do Debate Público” (Iesp-Uerj/INCT-ReDem) explorou essa ideia ouvindo o que a população realmente entende por democracia.
Entre 27 de abril e 3 de maio de 2026, seis grupos focais no WhatsApp responderam uma pergunta simples: “Para você, o que significa democracia? Dê exemplos”. Os grupos abrangiam o espectro político completo, de bolsonaristas convictos até lulistas, passando por bolsonaristas moderados, indecisos conservadores, indecisos progressistas e lulodescontentes (votaram em Lula em 2022 e agora desaprovam o governo). Cinquenta participantes no total.
Entre os grupos de direita (bolsonaristas convictos, bolsonaristas moderados e indecisos conservadores), a democracia apareceu como um modelo ideal, mas acompanhado de frustração quando olham para o caso brasileiro. Valorizam a liberdade de expressão, o direito de voto e os direitos individuais. Mas interpretam o presente como desvio desse modelo. Há um sentimento de perda, como se a democracia que existia no passado recente, liderada por Jair Bolsonaro, tivesse sido traída.
Um participante sintetiza: “Democracia é praticamente o que não existe mais no Brasil onde nossas escolhas nem sempre prevalecem”. Outro: “Democracia é tudo, menos o que está acontecendo atualmente no Brasil”. A desconfiança se concentrou nas instituições e nos atores políticos, com a percepção de que interesses particulares se sobrepõem ao interesse coletivo. A percepção consensual é que os mecanismos formais ainda existem, mas não garantem a efetividade dos princípios que defendem.
Entre indecisos progressistas e lulodescontentes, a democracia apareceu como um valor consolidado, mas ainda incompleto. O foco recaiu na garantia de direitos individuais e na possibilidade de participação ativa na vida pública. Como disse uma participante: “Democracia na minha visão é você ter poder de voto, de fala, ser uma voz ativa na sociedade”. Outra perspectiva: “Democracia é quando as pessoas têm voz de verdade pra influenciar os rumos da sociedade”.
Mas houve uma preocupação central: nem todas as vozes têm peso igual nas decisões. A inclusão de todos na vida democrática ainda está inacabada. A crítica se endereçou menos à estrutura institucional em si e mais à sua capacidade de produzir inclusão real e impacto na vida das pessoas. Diferentemente da direita, esses grupos olham para o futuro, querem mais participação e que mais vozes ganhem peso nas decisões. A participação foi entendida como algo que vai muito além do momento eleitoral e faz parte do cotidiano.
Entre os lulistas, a democracia foi compreendida de modo mais formal. Predominou a ideia de um regime político organizado por regras claras: eleições, divisão de poderes, respeito à oposição. Um participante afirmou: “Democracia é participação dos cidadãos nas decisões políticas de forma direta ou indireta, onde o poder emana do povo”.
Diferentemente dos bolsonaristas, reconheceram que o regime formal está funcionando. Mas enfatizaram que a democracia deve ser concretizada em direitos sociais: saúde, educação, justiça e igualdade devem deixar de ser promessas abstratas e virar realidade. “Democracia é respeitar e viabilizar os direitos básicos à civilidade a todos”, disse outro participante. Esse segmento olha para o futuro, para que a democracia se efetive através de uma distribuição mais equitativa de recursos e direitos.
Os brasileiros, independentemente de sua posição política, não se contentam com a democracia reduzida apenas ao direito de votar. Para a direita, a democracia brasileira é algo que já se perdeu; para a esquerda e o centro, algo que ainda não se cumpriu inteiramente. Cada grupo enxerga a democracia em um tempo diferente.
A direita lamenta o passado recente, enquanto progressistas e lulistas sonham com um futuro mais inclusivo e distribuidor. Querem liberdade, igualdade de fato e voz contínua nos processos de decisão. E que as promessas do regime se cumpram. Trata-se de uma expectativa legítima, afinal, sistemas políticos precisam concretizar aquilo que prometem.
Folha de São Paulo



