Relação com Alcolumbre desafiará eventual sucessor de Jaques Wagner

A possível saída do senador Jaques Wagner (PT-BA) da liderança do governo no Senado após ser alvo da operação Compliance Zero, deixará ao seu potencial sucessor a tarefa de destravar pautas importantes para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e remendar a relação com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Jaques foi um dos alvos da 9ª fase da operação Compliance Zero que investiga o Caso Master. A Polícia Federal (PF) cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao parlamentar e aponta que o senador baiano atuou a favor dos interesses do banco de Daniel Vorcaro em troca de vantagens econômicas.
Apesar de ter negado o cometimento de crimes e de pedir ao Supremo Tribunal Federal (STF) a anulação da decisão que autorizou a operação, Jaques Wagner se vê pressionado, nos bastidores, a deixar o cargo para evitar desgastes à tentativa de reeleição de Lula.
Quem é Jaques Wagner
- Senador do PT da Bahia em seu primeiro mandato;
- Sindicalista, começou a carreira política como deputado federal em 1990;
- Ocupou cargos de ministro nos primeiros anos de Lula, à frente de pastas como o Ministério do Trabalho e da Secretaria de Relações Institucionais;
- Foi eleito governador da Bahia em 2006, cargo que ocupou por dois mandatos, até 2014;
- Depois, foi ministro da Defesa e posteriormente da Casa Civil no governo Dilma Rouseff entre 2015 e 2016;
- Após o impeachment, voltou a Bahia, onde exerceu cargos como a coordenação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CODES) e secretário de Desenvolvimento Econômico do Governo da Bahia, no governo de Rui Costa.
Desgastes
À frente da articulação no Senado, o senador petista acumula desgastes na Casa que, até agora, não tinham superado o apoio que recebia do presidente Lula para permanecer no cargo.
O principal deles é o rompimento com Alcolumbre. Em novembro de 2025, após o anúncio da indicação de Jorge Messias ao Supremo, o presidente do Senado parou de atender Jaques Wagner, de quem, até aquele momento, tinha uma proximidade no nível pessoal.
Segundo interlocutores ouvidos pelo Metrópoles, o senador amapaense atribui a Jaques a indicação de Messias, que trabalhou no gabinete do senador petista no passado, em detrimento de Rodrigo Pacheco (PSB-MG). Desde então, Alcolumbre tem mantido pouco ou quase nenhum contato com o líder do governo.
O desgaste atingiu o auge quando o Senado rejeitou Messias para o Supremo, em uma demonstração de força política para Alcolumbre e derrota para o petista, que havia passado as últimas horas antes da votação no plenário tentando convencer colegas a votarem a favor do advogado-geral da União.
Apesar do rompimento, um raro aceno foi feito horas depois de a Polícia Federal mirar Jaques Wagner. A jornalistas, Alcolumbre defendeu o princípio da presunção de inocência e afirmou que o líder do governo terá a oportunidade de se defender ao longo do processo. O presidente do Senado ressaltou que o petista tem o respeito e a admiração dos pares.
“Meu apoio e minha solidariedade integral a um colega senador da República. Eu tenho a convicção que, no decorrer do processo, as verdades do senador Jaques Wagner virão à tona e elas serão comprovadas, e um dia elas serão julgadas, e é lá nesse dia que a pessoa pode ser condenada ou inocentada”, declarou.
Dias antes da ação da PF, foi Jaques quem saiu em defesa de Alcolumbre, que, segundo a Revista Veja, teria recebido US$ 30 milhões de Daniel Vorcaro para atuar a favor do banco no Senado. O senador baiano subiu à tribuna e disse que as acusações da Veja eram “mentirosas”.
Alheamento
Apesar do rompimento com o senador baiano, Alcolumbre não chegou a externalizar o desejo de troca na liderança, segundo relatos tanto de aliados do presidente do Senado, quanto interlocutores do governo. Com o rompimento, Alcolumbre se limitou a tratar temas relativos ao governo com o líder do Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), dando à gestão petista derrotas sucessivas.
Temas prioritários como as Propostas de Emenda à Constituição (PEC) do fim da escala 6×1 e a da Segurança Pública estão na lista de iniciativas barradas por Alcolumbre neste ano. Há também projetos parados, como o que trata sobre minerais críticos e vetos presidenciais que deverão ser derrubados.
Pautas-bomba
Segurar propostas não tem sido a única maneira do presidente do Senado de impor derrotas a Lula e inviabilizar a articulação do líder do governo. Alcolumbre também tem dado andamento às chamadas “pautas-bomba”, de forte impacto fiscal.
Apesar de apelos do governo – que incluem contatos com ministros, mas sem qualquer aproximação do presidente Lula – Alcolumbre pautou o projeto de renegociação das dívidas rurais, levando o governo a discutir formas de judicialização.
Jaques, inclusive, entrou com um requerimento para frear a ida de um desses projetos direto para a Câmara. Como mostrado pelo Metrópoles, na coluna de Igor Gadelha, o líder do governo pediu para que o reajuste do piso de médicos e dentistas seja analisado no Senado.
Alcolumbre tem reclamado sucessivamente das críticas que recebe por segurar pautas de apoio popular e dar andamento a propostas caras para o governo, o que, na prática, tem afastado ainda mais o presidente do Senado do líder do governo e, por via de regra, de Lula.
Metrópoles



