Política

Veja checagem de falas de Tarcísio e Haddad sobre economia, educação e segurança

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-ministro Fernando Haddad (PT) citaram dados sobre economia, educação, ciência, saneamento e segurança pública durante o primeiro debate entre candidatos ao Governo de São Paulo, neste domingo (9), na Band.

Leia a seguir a checagem realizada pela Folha sobre as declarações de ambos:

RISCO DE RECESSÃO

Tarcísio afirmou que o Brasil “continua com uma taxa de investimento baixa” e disse que o país “está caminhando para uma situação problemática, uma situação de recessão”.

A taxa de investimento baixa é um problema visto desde o governo Michel Temer (2016-18). A média nos três primeiros anos do governo Lula (16,7%) é praticamente a mesma do governo Jair Bolsonaro (16,9%), quando Tarcísio era ministro.

Sobre a recessão, reportagem da Folha no sábado (8) apontou que o endividamento das famílias pode levar a uma desaceleração mais forte. A pesquisa Focus, porém, projeta crescimento próximo de 2% nos próximos anos.

LUCRO DAS ESTATAIS

Haddad afirmou que “o lucro das estatais no governo do presidente Lula é quase R$ 100 bilhões a mais do que no governo do Bolsonaro no mesmo período de três anos”.

Os resultados foram de R$ 357 bilhões entre 2019 e 2021 e de R$ 490 bilhões no período correspondente da atual gestão, diferença de cerca de R$ 130 bilhões.

DÍVIDA DOS ESTADOS

Tarcísio afirmou que os estados ajudaram a “desenhar o Propag” (Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados) e disse que o programa foi “vetado pelo presidente da República”. Haddad rebateu afirmando que Lula “vetou artigo, não vetou a lei” e disse que São Paulo demorou a aderir. “Você perdeu R$ 8 bilhões em 2025”, disse.

O Propag é fruto de negociação entre governo federal, estados e Congresso. Lula vetou artigos da lei, e não toda a legislação.

De março a setembro de 2025, apenas Goiás havia entrado no programa. São Paulo aderiu após a derrubada dos vetos. O governo paulista também recorreu ao STF para validar a adesão.

ARCABOUÇO FISCAL

Tarcísio afirmou que o governo Lula teve “um arcabouço fiscal frouxo” que permitiu “as despesas crescerem mais do que a inflação”.

O governo Lula cumpriu as metas previstas no arcabouço fiscal, embora parte das despesas tenha sido excluída das regras de controle fiscal. No governo Bolsonaro, também foram adotadas medidas que permitiram ampliar despesas para além das restrições do teto de gastos vigente à época. Em ambos os casos, houve aumento real de determinadas despesas, por meio de mecanismos e exceções previstos ou posteriormente autorizados pela legislação.

DESEMPENHO NO IDEB

Tarcísio afirmou que, em 2023, São Paulo havia sido “o terceiro no ensino fundamental 1, o quinto no ensino fundamental 2 e o oitavo no ensino médio”.

Os resultados do Ideb de 2023 colocavam a rede estadual paulista em sexto lugar nos anos iniciais, e não em terceiro. Em 2025, a nota subiu de 6,2 para 6,6, atingindo a meta, mas o estado caiu para o sétimo lugar.

Nos anos finais, São Paulo caiu de sexto para sétimo entre 2023 e 2025, apesar de a nota subir de 5,1 para 5,2. A meta era de 5,8. No ensino médio, passou do oitavo para o décimo lugar, de 4,2 para 4,3, ante meta de 5,1.

TEMPO INTEGRAL

Tarcísio afirmou que houve “150 mil matrículas a mais” em escolas de tempo integral.

Segundo o Censo Escolar, a rede estadual tinha 889.495 matrículas em 2022 e 962.395 em 2025, aumento de 72.900, não 150 mil.

Haddad disse que a modalidade “não avançou no mandato do Tarcísio absolutamente nada” e afirmou que São Paulo tem “cerca de 24% dos alunos de ensino médio em tempo integral”.

Em 2025, o percentual era de 26,4%. O número de matrículas, porém, cresceu só 0,36% na gestão, de 330.284 para 331.484.

ALFABETIZAÇÃO

Tarcísio afirmou que seu governo “avançou muito na alfabetização na idade certa”. Haddad disse que São Paulo tem 61% das crianças alfabetizadas na idade adequada, “contra uma média nacional de 66%”.

As duas afirmações são compatíveis. O índice passou de 52% em 2023 para 58% em 2024 e 61% em 2025, mas continuou abaixo da média nacional.

PESQUISADORES

O candidato à reeleição afirmou que valorizou os pesquisadores estaduais com novo plano de carreira, recomposição salarial e contratações.

A lei foi sancionada em novembro de 2025. A remuneração inicial passou para R$ 9.052,47, com subsídios de até R$ 22.677,11. Associações contestam a reforma e dizem que os maiores ganhos se concentram no início da carreira, minoria do quadro, prejudicando pesquisadores antigos.

Neste ano, a gestão nomeou 37 pesquisadores para a Secretaria da Agricultura. As vagas haviam sido autorizadas em 2022, no governo Rodrigo Garcia (PSDB), e as nomeações ocorreram em abril.

Em março, Tarcísio autorizou concurso para 98 pesquisadores do IPA (Instituto de Pesquisas Ambientais) após o ministro Flávio Dino, do STF, determinar que o estado apresentasse plano para recompor o quadro.

SANEAMENTO

Haddad criticou a privatização da Sabesp e disse que municípios enfrentam falta de água. A Folha mostrou em julho que 131 cidades precisam de obras imediatas para evitar problemas de abastecimento até 2060.

O governador citou avanços no saneamento, que de fato ocorreram, mas superestimou parte dos resultados. Guarulhos atingiu índice de 45% de tratamento de esgoto após obras da Sabesp. Já Bauru ainda despeja esgoto em afluentes do Tietê porque a principal estação de tratamento prevista na concessão não foi concluída.

CRACOLÂNDIA

Tarcísio afirmou ter resolvido o problema da cracolândia em ação conjunta com a prefeitura e instituições de Justiça.

A grande aglomeração de usuários acabou, mas o chamado “fluxo” se dispersou por outras vias e em grupos menores, que continuam circulando pela região central.

DE BRAÇOS ABERTOS

Tarcísio afirmou que o programa De Braços Abertos, criado por Haddad quando prefeito, não deu certo. O petista rebateu que “dois terços das pessoas atendidas deixaram de consumir crack ou diminuíram muito o consumo”.

O programa oferecia moradia, alimentação, atendimento em saúde e trabalho remunerado sem exigir abstinência e atendeu cerca de 500 pessoas. Pesquisa financiada pela Open Society apontou que 67% reduziram o uso de crack e 95% avaliaram que a iniciativa teve impacto positivo ou muito positivo.

Também houve problemas: 49% dos entrevistados criticaram a qualidade e a localização dos hotéis.

FAVELA DO MOINHO

O candidato do Republicanos afirmou que foi sob sua gestão que o estado entrou na favela do Moinho e retirou os moradores. O petista disse que o rival não reconhece a participação federal e afirmou que a União liberou R$ 180 mil por família.

Ambos têm razão. O governo Tarcísio assumiu o projeto de desativação, mas o terreno pertencia à União e foi cedido gratuitamente ao estado. A União se comprometeu a pagar R$ 180 mil por família, e o governo paulista deu R$ 70 mil. O estado afirma ter antecipado valores diante da demora federal.

ATO NO MOINHO

Tarcísio acusou Haddad de ter participado de ato na favela do Moinho ao lado de Alessandra Moja, posteriormente presa sob suspeita de envolvimento com o tráfico e extorsão de moradores.

Ela é irmã de Leonardo Monteiro Moja, o Léo do Moinho, apontado como líder do tráfico. Na época do evento, porém, a mulher não havia sido apontada como uma liderança do tráfico na comunidade. Uma denúncia do Ministério Público de 2024 apontou que a “família Moja” comandava o tráfico no local

“Se você sabia que era traficante, por que você não foi lá prender? Eu não sabia. Se eu soubesse, teria dado voz de prisão para ela”, rebateu Haddad.

Alessandra participou da visita de Lula à comunidade em junho de 2025 e foi presa em setembro. Também estava no palco Yasmin Moja, presa posteriormente.

Haddad disse não saber das suspeitas. A Secretaria-Geral da Presidência afirmou que Alessandra havia participado, com outras lideranças, de reunião acompanhada pela imprensa para organizar a visita.

PCC E POLÍCIA MILITAR

Haddad afirmou que “não é verdade que está havendo um combate ao PCC” e disse que havia “coronéis de alta patente vinculados ao crime organizado”. Também afirmou que Tarcísio afastou o comandante-geral da PM porque ele seria “suspeito de vinculação com o crime organizado”.

Em julho, três coronéis da Polícia Militar de São Paulo foram citados nos relatórios da Promotoria que embasaram a Operação Janus, que mira um grupo suspeito de movimentar valores ilícitos em favor do PCC.

Os policiais citados não são investigados e não foram alvo da operação, que se concentra nos suspeitos de crimes financeiros. As provas devem ser compartilhadas com a Justiça Militar quando o inquérito for concluído.

Folha de São Paulo

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