Saúde

Técnica que promete maior comprimento do pênis atrai homens trans estrangeiros ao Brasil

Giacomo Furfori, 27, saiu de Massa, no noroeste da Toscana, na Itália. O vietnamita Keane, 30, de Singapura. Os dois homens trans vieram para Salvador atraídos por uma nova técnica de cirurgia de redesignação sexual criada por brasileiros.

A operação promete a construção de um pênis com possibilidade de ereção, preservação da sensibilidade e tamanho maior em relação às técnicas convencionais.

Chamado de TCM (Total Corpora Mobilization, ou Mobilização Total dos Corpos Cavernosos), o procedimento foi desenvolvido pela equipe do urologista Ubirajara Barroso, especialista em reconstrução genital e cirurgias trans, em parceria com a Divisão de Urologia da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e a Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

Segundo Barroso, o método surgiu para reconstrução genital em homens cis com pênis insuficiente (ou micropênis) e posteriormente passou a ser aplicado também em homens trans.

A projeção internacional começou quando a equipe de Barroso publicou os resultados do procedimento na revista científica International Brazilian Journal of Urology, em 2022. Mas foi no Reddit que a técnica ganhou visibilidade entre homens trans. A plataforma é usada por usuários para compartilhar experiências, tirar dúvidas e trocar informações sobre os mais variados assuntos.

“Nos últimos meses, já atendi pacientes do Canadá, Singapura, Austrália, Itália, Estados Unidos, Israel e Irlanda. Sempre fazemos consultas online para entender a história do paciente e poder agendar sua vinda ao país”, afirma Barroso, atual vice-presidente da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia).

A reportagem solicitou ao Ministério da Saúde e à SBU dados sobre o número de homens trans estrangeiros que vêm ao Brasil para realizar esse tipo de cirurgia, mas nenhuma das instituições dispõe dessas informações.

Para Débora Pitol, cirurgiã plástica que se especializou em procedimentos de masculinização e feminilização de pessoas trans, o Brasil caminha para se tornar um centro de referência internacional nesse segmento à medida que mais profissionais acumulam experiência com esse público.

“A cirurgia plástica brasileira é uma especialidade mundialmente reconhecida. Nós temos tradição, conhecimento e técnica de excelência, e isso não será diferente para as cirurgias de redesignação”, afirma.

Tanto a técnica convencional (metoidioplastia) quanto a TCM começam de forma semelhante, com o uso de testosterona para aumentar o clitóris e possibilitar a construção de um pênis. A principal diferença surge durante a etapa de liberação dos tecidos internos.

Na convencional, realizada em diversos países, o cirurgião pode cortar ou não o ligamento suspensor, que conecta o clitóris ao osso púbico. Na TCM o corte é obrigatório, e os corpos cavernosos do clitóris são descolados da pelve e reposicionados. O objetivo é exteriorizar uma porção maior do tecido, aumentando o comprimento visível do falo.

“Na convencional, o pênis fica, no máximo, com 3,5 a 4 centímetros de comprimento, o que não permite a penetração nem urinar em pé, porque continua fixado ao osso. Já a TCM praticamente dobra o tamanho do falo, chegando a cerca de 6 a 8 centímetros”, diz Barroso.

Outra etapa é a escrotoplastia, procedimento em que os grandes lábios são remodelados para formar uma bolsa escrotal. Em um segundo momento, podem ser inseridas próteses de silicone para reproduzir a aparência anatômica dos testículos.

A TCM pode ser realizada em uma ou duas etapas. A principal diferença entre as duas abordagens está na reconstrução da uretra.

Já na abordagem em dois tempos, a reconstrução da uretra é dividida em fases. Na primeira, é retirado um enxerto de mucosa da parte interna da boca. Esse tecido é utilizado para preparar o futuro canal urinário, mas a uretra não é fechada completamente. Após um período de cicatrização de cerca de seis meses e o uso de uma sonda, o paciente retorna para uma segunda operação, mais simples, na qual a uretra é definitivamente fechada e conectada à ponta do novo falo, que, por sua vez, é recoberto com a pele natural da região.

Na cirurgia em tempo único, o paciente já sai com a reconstrução concluída, embora haja o risco de ocorrer uma fístula uretral, uma pequena abertura ao longo do trajeto recém-criado.

A operação dura entre cinco e sete horas, dependendo se for realizada em um ou dois tempos. Após a operação, o paciente permanece internado por aproximadamente quatro dias, sem necessidade de UTI ou transfusão de sangue.

A partir da alta hospitalar, ele continua no Brasil em recuperação, totalizando cerca de três semanas a um mês até estar apto a embarcar de volta ao país de origem.

Foi no Reddit que Keane, um desenvolvedor de softwares, ficou sabendo sobre a TCM. Ele nasceu no Vietnã, onde cirurgias de redesignação são proibidas por lei, e atualmente vive em Singapura, onde não existe esse tipo de procedimento. Keane buscou alternativas em vários países europeus e asiáticos, mas nenhum o convenceu.

No Japão, segundo Keane, a espera pode ultrapassar dois anos. Grande parte do processo exige documentação em japonês. Na Holanda, a fila seria ainda maior e há exigência de residência no país.

Nos EUA, o principal obstáculo foi financeiro. Já a Tailândia foi descartada por dificuldades de comunicação. No Irã, uma técnica parecida com a TCM é feita, mas o território é marcado por diversos conflitos e insegurança.

“Uma coisa que me impressionou bastante foi o processo jurídico e administrativo no Brasil, principalmente a forma como os documentos podem ser assinados digitalmente pelo médico e verificados em um site do governo. Ver o quão estruturado e transparente isso é me deu muito mais confiança para fazer a viagem”, diz.

Em entrevista por videochamada, ele preferiu usar o avatar de um urso para conversar e pediu para não divulgar seu sobrenome. Ele teme sofrer preconceito em seu país ou algum tipo de represália no trabalho.

Keane pagou cerca de 80 mil dólares de Singapura (cerca de R$ 318 mil), incluindo cirurgia, passagens, hospedagem e demais despesas. Ele diz que embarcou para o Brasil com receio do pós-operatório, mas a experiência foi diferente do que imaginava.

“Eu estava preparado para sentir muita dor e para ter bastante dificuldade de locomoção nos primeiros dias, mas no terceiro, eu já estava andando”, diz.

Keane optou por fazer o procedimento em duas etapas. A primeira ocorreu em dezembro de 2025. A segunda será em junho. Segundo ele, um dos aspectos que mais o surpreenderam foi a estrutura e o cuidado da equipe médica. “Eu me senti muito bem acompanhado durante todo o processo. Sempre que surgia alguma dúvida, havia alguém disponível para ajudar.”

Em Salvador, os estrangeiros contam com acompanhamento de profissionais bilíngues contratados para auxiliar desde a chegada ao aeroporto até a recuperação pós-operatória.

A enfermeira Luciana de Jesus, 50, fundadora da empresa AdSumus, afirma que sua equipe oferece suporte logístico, tradução, acompanhamento em consultas, transporte e auxílio durante o período de recuperação.

“Nós ficamos à disposição para tudo o que precisarem. A gente quer que eles se sintam acolhidos, seguros e conheçam um pouco da nossa cultura”, afirma.

“Encontrei relatos sobre a técnica brasileira no Reddit. Na Itália, eu sentia que as opções não eram boas. Eu precisava escolher entre um pênis pequeno, que não permitiria a vida sexual que eu imaginava, ou uma faloplastia com outras limitações”, diz Giacomo, que conversou com a Folha três dias antes de sua cirurgia em Salvador.

Durante anos, o italiano trabalhou como auxiliar de limpeza para juntar dinheiro para o procedimento. Guardou 13 mil euros (R$ 76,6 mil) e ainda precisou financiar parte do procedimento com um empréstimo bancário que levará dez anos para pagar. No total, calcula ter desembolsado cerca de 23,5 mil euros (R$ 138,4 mil) para passar pela operação.

“Foi difícil economizar. Mas esta cirurgia representa o fim da minha transição. Eu vou para o mar. Vou fazer sexo. Vou vestir as roupas que eu quero. Vou poder ficar pelado na academia. Vou viver minha vida com mais liberdade. Vou ser feliz”, afirma.

Informação

Folha de São Paulo

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