Política

Mendonça, o novo justiceiro, também precisa ser cobrado

As revelações sobre as relações de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro são graves e precisam ser esclarecidas. Sua atuação contra a tentativa de golpe obviamente não lhe confere imunidade, pelo contrário, coloca uma lupa sobre sua conduta. Há forte suspeita de corrupção.

Os erros de Moraes, contudo, não transformam André Mendonça em paladino da moral e da imparcialidade. Há elementos suficientes para que a atuação do novo candidato a justiceiro do Supremo também seja submetida a escrutínio.

Um relatório da própria Polícia Federal chamou a atenção para a diferença de velocidade com que Mendonça analisou medidas contra políticos de campos distintos. Foram nove dias no caso do petista Jaques Wagner, 29 no de Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro, e até 75 num procedimento envolvendo o ex-governador fluminense Cláudio Castro, do PL. Essas diferenças não podem ser tratadas como prova de parcialidade, mas são um indício.

E não se trata de sinal isolado. Há outros, que apontam para diferenças de tratamento em episódios envolvendo Lulinha e políticos da direita. Também é questionável a atitude de Mendonça diante de referências a integrantes do próprio Supremo: enquanto demonstrou interesse em aprofundar rapidamente elementos relacionados a Moraes, foi preguiçoso com Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques. A PF ressalva que não há elementos para estabelecer as razões dessas diferenças.

Paulo Gonet, como está claro, não pode ser aceito como árbitro da crise. O nome do procurador-geral aparece no material investigado. Caberá a Edson Fachin, presidente do tribunal, descascar o abacaxi, tarefa hercúlea.

Tudo isso às vésperas das eleições, o que exige cuidado redobrado com o andor. Políticos bolsonaristas e analistas de direita festejam as revelações sobre Moraes e procuram colá-lo a Lula, na clara expectativa de transferir o desgaste ao presidente. Mas essa associação simplifica uma relação mais ambígua.

Lula e Moraes —que foi indicado por Michel Temer— estiveram do mesmo lado na defesa das instituições contra o golpismo, mas isso não os tornou aliados incondicionais. O presidente já manifestou nos bastidores descontentamento com Moraes quando surgiram as primeiras revelações da relação com Vorcaro. E ficou particularmente contrariado com a rejeição pelo Senado de Jorge Messias, que teria contado com apoio do ministro.

Diante das novas revelações, Lula fez bem ao defender que todos sejam investigados e afirmar que ninguém pode utilizar um cargo público e a democracia em benefício pessoal.

A politização das instituições —e a mídia não está fora disso— tornou-se irrefreável e se acentua com a proximidade das eleições. Não se discutem propostas para o país, o que prevalece é o tiroteio ideológico acirrado e perigoso.


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Folha de São Paulo

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