Política

Valdemar e Michelle cercam a candidatura de Flávio Bolsonaro

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou na sexta-feira (10) a indisponibilidade de até R$ 119 milhões em bens de Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, no âmbito de uma investigação da Polícia Federal sobre o suposto direcionamento irregular de emendas parlamentares.

A menos de dez dias das convenções partidárias, a decisão tem como alvo o principal articulador da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. O senador saiu em defesa do cacique do partido, acusou a PF de agir “de forma seletiva” para constranger adversários de Lula e ganhou o reforço de Hugo Motta, presidente da Câmara, que classificou a medida de “inaceitável” e de “indevida intervenção judicial”.

O caso foi bastante explorado nos grupos públicos de mensageria, tanto de direita como de esquerda. De acordo com a Palver, que realiza um monitoramento em tempo real em mais de cem mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram, as menções a Valdemar, que não passavam de algumas dezenas por dia na semana anterior, saltaram para a principal pauta na sexta-feira (10) , quando o nome do dirigente apareceu em cerca de um terço de todas as mensagens sobre o universo Bolsonaro.

O pico se concentrou entre o início da tarde e a noite, e ainda respondeu por um quarto do debate no sábado (11), quando Valdemar deu entrevista à CNN para dizer que “não tem esse dinheiro” e que sugerir a aplicação de emendas “é normal”.

Flávio aparece em mais de 8 de cada 10 mensagens do recorte, sinal de que a crise do PL é lida, acima de tudo, como um problema da sua candidatura.

No campo bolsonarista, a narrativa dominante trata a operação como perseguição e “lawfare”, apontando que Dino e a PF mobilizam recursos contra opositores enquanto poupam aliados do governo. Do outro lado, críticos do PL e o campo governista tentam colar na direita a pecha de corrupção, associam o episódio ao “orçamento secreto” e ao histórico do dirigente no mensalão, e é essa narrativa, presente em torno de 12% das mensagens do período, que mais aparece quando o assunto é Valdemar.

Apesar da crise recente envolvendo Valdemar, ainda prevalece nos grupos a discussão em torno da família. Michelle Bolsonaro, que deixou a presidência do PL Mulher após acusar Flávio de tê-la desrespeitado, lançou na última semana o movimento Imparáveis, projeto de perfil próprio que estava previsto para 2027 e foi antecipado. O tema respondeu por cerca de 8% das mensagens da semana, com Michelle e Flávio citados juntos com frequência ainda maior do que Valdemar e o senador.

De um lado, apoiadores do senador voltaram a tratar a ex-primeira-dama como fator de divisão e cobraram “lealdade ao mito”, em meio à carta em que Jair Bolsonaro chama o filho de “porta-voz” e pede união. De outro, uma parcela menor aposta na reconciliação e tenta transformar a autonomia da ex-primeira-dama em ativo, e não em ameaça. Fato é que a disputa tem dado popularidade a Michelle, que poderá tentar converter esse engajamento em força política eleitoral.

Nas próximas semanas, o desafio do PL será impedir que a agenda das convenções seja sequestrada pelo processo contra Valdemar e pela novela com Michelle. A defesa do dirigente e o discurso de perseguição podem até unir a base mais fiel, mas expõem a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro a ter seu nome amarrado, ao mesmo tempo, à sombra do “orçamento secreto” e à crise do Banco Master. Enquanto a direita bolsonarista gasta energia se defendendo em duas frentes, as demais candidaturas ganham tempo para se organizar antes de o debate eleitoral esquentar de vez.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Folha de São Paulo

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo